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VN Barquinha: António Costa visitou a escola que todos querem visitar. E gostou muito

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São 9h00 e praticamente não há espaço para os pais deixarem os seus filhos na Escola Ciência Viva (ECV) em Vila Nova da Barquinha (VNB).Viaturas com gravatas ao volante vão chegando e não há lugares suficientes para estacionamento. Em breve os passeios serão invadidos.

Meia hora mais tarde já está tudo a postos. A Guarda Nacional Republicana já montou o dispositivo, discreto. Dois seguranças pessoais do primeiro ministro posicionam-se nas extremidades entre a comitiva que não quer perder a chegada de António Costa. Nessa comitiva estão autarcas, representantes das forças de segurança, dos bombeiros, do agrupamento de escolas e demais entidades oficiais.

Fernando Freire, presidente da câmara de VNB, e Paulo Tavares, diretor do Agrupamento de Escolas de VNB, são os anfitriões. Antes da chegada, uma funcionária da escola diz em surdina que no dia anterior “trabalhámos até à noite” para deixar a escola num brinco. Mas não se queixava, antes sorria.

Cerca de três dezenas de pessoas aguardavam a comitiva que chegaria sem atraso de monta, pelas 9h30. O carro de António Costa chega e atrás dele seguem quatro outras viaturas que o acompanham.

Deve ser caso de estudo. Em pouco tempo, a ECV recebe a cúpula da educação do país. Em meados de 2016 foi João Costa, secretário de estado da educação, a visitar VNB e em Maio passado foi a vez de Tiago Brandão Rodrigues, ministro da educação. Agora, para além do ministro da educação repetir a visita, trouxe com ele António Costa.

Lá dentro a volta foi completa. De sorriso permanente, António Costa assistiu a cada momento preparado a regra e esquadro por parte da direção da escola. Os laboratórios com os alunos e alunas devidamente equipados e esforçados nas suas experiências, o grupo de teatro com o guião bem estudado, as vozes afinadas do coro, até as mesas do refeitório com os tabuleiros, talheres e loiça devidamente alinhados.

Não falhou nada.

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VNB é território confortável para os socialistas e para o seu governo. Bem discreto – como aliás é seu timbre – Miguel Pombeiro, ex-presidente da autarquia, acompanhou a visita. Não que dela necessitasse não tivesse sido ele quem renovou e reorganizou completamente o campus escolar durante os seus mandatos.

Pedro Ferreira, presidente da Câmara de Torres Novas (PS) também fez questão de estar presente, o mesmo acontecendo com António Gameiro, presidente da distrital socialista e com o deputado Hugo Costa.

A volta à escola foi rápida mas paciente e interessada. António Costa e Tiago Brandão Rodrigues não se furtaram a questionar os alunos sobre o que viam. Todos passaram com distinção ao exame governamental.

A visita de António Costa à ECV foi exploratória, mas foi também um bom momento para o primeiro ministro enviar uma mensagem para o país. Numa altura em que se discute o reforço da intervenção das autarquias nos projetos educativos, o primeiro ministro aproveitou os sorrisos do dia e as cameras de televisão e microfones para dizer que para “aqueles que têm muito medo de ver reforçado o papel das autarquias no processo educativo este é um excelente exemplo de que as autarquias não fazem mal ao projecto educativo. Porque combinar a proximidade da autarquia, o entrelaçar da autarquia com a comunidade escolar e a autonomia pedagógica da escola mais a flexibilização da gestão dos políticos é um casamento muito feliz e a melhor prova é o fruto deste casamento”. Já antes elogiara o projeto da ECV, “tomei uma decisão: não há melhor forma de começar o dia como visitando uma escola. E de facto ontem era o dia mundial da criança. De facto, começar o dia numa escola tão sorridente é muito inspirador e demonstra bem a importância da escola, e esta em particular”.

“Nós hoje sabemos que todo o nosso futuro depende da capacidade que tivermos de produzir conhecimento e de o aplicar. Este investimento que está hoje a ser feito é da maior importância para aquilo que queremos que o país seja daqui a 25 anos quando estas crianças tiverem completado o seu processo educativo e puderem ter a oportunidade de se realizarem e de aplicar o conhecimento acumulado ao longo da vida”, disse o primeiro ministro, projetando depois o que considera serem as prioridades do país, “a maior obrigação que nós temos é prosseguirmos nas próximas décadas a investir na educação como prioridade central, não pode ser só uma paixão, tem de ser consumada”.

Já no final do discurso, António Costa congratulou o “notável” trabalho de toda a comunidade, “porque é difícil encontrarmos em qualquer parte do país uma escola com uma excelência destas. Só tenho mesmo pena de não poder voltar cá amanhã outra vez… (amanhã é sábado, ouviu-se na sala) “segunda feira!”, respondeu o governante. “Já vi que é uma excelente forma de começar o dia”.

Fernando Freire foi o primeiro a discursar no final da visita. O autarca realçou “a história da barquinha, que é a luta pela nossa nacionalidade e de que é exemplo o Castelo de Almourol, é o local onde se construíram as primeiras galeotas com que se iniciou os descobrimentos”.

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O presidente da autarquia aproveitou para apelar a António Costa sobre outro assunto que tem estado na sua agenda, “apelo ao senhor primeiro ministro, como militar aposentado, pois gostaria que numa hipotética solução Portela mais dois, a força aérea regressasse a VNB”.

“Os municípios são a estrutura fundamental para a questão dos serviços públicos numa dimensão de proximidade e VNB é um exemplo disso. Desde 2009 que tem contrato de transferência de atribuições de competência em matérias de educação. Fica então explicado porque é que a autarquia tanto investiu na educação”, afirmou ainda Freire a propósito das parcerias que permitiram a construção da escola e criação do projeto.

Já Paulo Tavares agradeceu a visita de António Costa e Tiago Brandão Rodrigues, “é um motivo de grande orgulho, sendo potenciadora de sinergias para continuar a desenvolver um trabalho profícuo pelos nossos alunos”, “preparamo-los para serem cidadãos em pleno neste século 21”.

O diretor do agrupamento de escolas disse ainda que o mesmo se encontra “envolvido num projeto de inovação pedagógica, foi um convite que muito nos honrou e esperamos que o nosso trabalho seja uma mais valia no sentido de contribuir para o sucesso educativo dos nossos alunos visando essencialmente a qualidade desse sucesso educativo. A vossa presença é inspiradora para continuara  desenvolver o nosso trabalho”.

À saída, questionado pelos jornalistas, e depois de ter cumprimentado uma a uma cada criança que o esperava num corredor humano, António Costa criticou a saída dos Estados Unidos do acordo de Paris. “Quando aqui chegámos, ouvimos logo o hino da escola e, creio que foi logo no primeiro verso, os meninos diziam que quando o mundo começou não havia poluição”, começou por dizer. “É pena o presidente Trump não ter frequentado esta escola. E é muito bom saber que estes meninos já sabem o que muitos responsáveis do mundo não sabem: só temos um planeta e o nosso primeiro dever é preservá-lo para as gerações futuras.”

Texto: Ricardo Alves

Fotos: Carlos Maia

Festival BONS SONS’16: Ainda há bilhetes a preço reduzido para um dos melhores festivais de Portugal

O Festival Bons Sons realiza-se de 12 a 15 Agosto e os passes para os quatro dias a apenas 25 euros ainda se encontram disponíveis mas por pouco tempo, apenas até ao final de Abril. A edição de 2016 do Bons Sons, cujo epicentro é na aldeia de Cem Soldos, Tomar, promete ser uma das mais concorridas de sempre. Em 2015 mais de 40 mil pessoas viveram a aldeia.

A caneca de alumínio do BONS SONS estará incluída nos preços de MAIO/JUNHO (32€) e JULHO/AGOSTO (38€). “Um contributo para reduzir a produção de resíduos e fortalecer a consciência ecológica do festival.”

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Editorial Março, Ricardo Alves – Director NA

“Estratégia”

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Basta olhar a água com maior atenção para lhe vermos a sujidade, a magreza do seu corpo, fruto de ataques continuados e impunes desde terras espanholas. Os autarcas queixam-se, manifestam-se. Mas por outro lado não o devem fazer com muita estridência. É que depois têm de vender o seu peixe, literalmente

A vida de autarca não será nada fácil. A crise trouxe um decréscimo no número de promessas que os políticos sempre fizeram na altura de caçar votos, simplesmente porque as mesmas nunca foram tão ilusórias. Cada vez mais é difícil encontrar projectos estruturantes e estratégicos.


Não é o caso do transporte a pedido, projecto da Comunidade Intermunicipal e que agora chega a Vila Nova da Barquinha. É, efectivamente, uma novidade que se congratula, encurtando distâncias e oferecendo mobilidade, um verdadeiro serviço público e um projecto enquadrado na importante promessa de uma comunidade do Médio Tejo a pensar em ampliada escala.


E quando escrevo que é um projecto da Comunidade Intermunicipal estou a escrever que é dos autarcas que a compõem . É lá, em Tomar e na sua sede, que os 13 presidentes de câmara poderão explanar as suas visões para a região e para os seus cidadãos. No meio está a virtude, diz o provérbio. Será?


De um lado um governo central há muito de costas voltadas para o interior do país, para os seus problemas. Do outro os autarcas, o poder local, tentando encontrar ideias no meio dos escombros. A vida de autarca não é fácil. Vejamos o caso do Rio Tejo.


Basta olhar a água com maior atenção para lhe vermos a sujidade, a magreza do seu corpo, fruto de ataques continuados e impunes desde terras espanholas. Os autarcas queixam-se, manifestam-se. Mas por outro lado não o devem fazer com muita estridência. É que depois têm de vender o seu peixe, literalmente, têm de apelar aos turistas para nos visitarem, para passearem de canoa no rio, visitarem o castelo no meio do rio, irem aos eventos nas margens do rio, degustarem as iguarias do rio…


No fundo os autarcas estão entre a espada e a parede, num constante deambular entre a realidade e a ficção. Acredito que tenham algum descanso, apesar de muito breve, quando projectos como o transporte a pedido vêem a luz do dia. Um interlúdio na ficção que hoje vivemos. A estratégia vale o que vale mas sem ela, mais do que nunca, o mundo fica absolutamente caótico.

A Bem Dizer, Opinião de António Matias Coelho

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“Senhora da Boa Viagem, A Grande Festa do Tejo”

As festas são como as pessoas: distinguem-se pela sua personalidade, pelas características próprias, pela forma como se dão e como acolhem os outros, pela sua dignidade. A Festa da Senhora da Boa Viagem, que se celebra pela Páscoa de cada ano em Constância, pelo que é e pelo que representa, assume-se como um caso verdadeiramente especial no panorama das festas do Médio Tejo.
Começou por ser uma festa de marítimos, iniciada no século XVIII, quando o transporte de mercadorias se fazia essencialmente por via fluvial e Punhete (agora Constância) era um dos mais movimentados e importantes portos desta parte do Tejo. Embarcados para viagens demoradas e perigosas, em especial durante o inverno, daqui para Lisboa e voltar, os marítimos sabiam bem que nem sempre as capacidades humanas são suficientes para aplacar as forças da natureza. E então, precavendo-se, entregavam-se à sua protetora, esperando que por intervenção dela o Céu lhes garantisse boa viagem. Assim, em chegando a semana santa, os barcos de Constância começavam a aportar à vila, como gaivotas em busca de proteção, e os marítimos desembarcavam para a sua única pausa do ano – para se confessarem, participarem nas cerimónias da Paixão e celebrarem a Páscoa. Ficavam em terra uns dias para reverem as famílias e os amigos e para retemperarem forças. E, já passada a Páscoa, na segunda-feira, para fazer a festa à Senhora da Boa Viagem, trazendo-a em procissão da matriz até aos rios para a Bênção dos Barcos. Assim se fechava um ciclo e se abria outro: os marítimos agradeciam à Senhora a proteção concedida no ano que terminava e imploravam-na para o ano que se seguia. E depois voltavam ao mar mais confortados.
Nesse tempo, à Bênção dos Barcos de Constância acorriam muitas embarcações de outros portos do Tejo, do Rossio, de Rio de Moinhos, de Tancos, da Barquinha, da Ribeira de Santarém, de Valada e de outros mais. Vinham aqui porque daqui tinham a convicção de levar o que em nenhum outro sítio poderiam encontrar: a bênção protetora para a viagem da vida.
Passado o tempo do transporte fluvial, devido à chegada do caminho de ferro e, sobretudo, das camionetas de carga, os barcos foram acostando e os marítimos, sem futuro, tiveram de mudar de vida. Estávamos nos anos ’60 do século passado. A Festa da Senhora da Boa Viagem passou então por um longo período de decadência e, a meio dos anos ’80, estava reduzida à sua expressão mais simples: a procissão com as pessoas da terra e a Bênção dos Barcos dada a duas ou três embarcações da vila, agora de pescadores. E só não definhou por completo porque a Paróquia e o povo a acarinharam e persistiram em a fazer.
Foi então que o município decidiu intervir. Não, evidentemente, para mexer na essência da Festa, que é religiosa e assim há de continuar a ser. Mas para, respeitando-a, a reanimar e a promover, enaltecendo o seu significado e a sua dignidade e criando em torno dela, no fim de semana da Páscoa, um conjunto de acontecimentos festivos próprios deste tempo que vivemos. Foi assim que nasceram as Festas do Concelho.
Como no tempo dos marítimos, agora a convite da Câmara de Constância, passaram a vir à Festa barcos de todo o vale do Tejo, representativos das comunidades dos 21 concelhos ribeirinhos, de Abrantes até Lisboa – o caminho dos barcos-de-água-acima de séculos e séculos de transporte fluvial. Porque não é navegável o Tejo, juntam-se os barcos no cais de Tancos, trazidos em camiões e postos a navegar com a ajuda de uma grua da engenharia militar. Daqui seguem engalanadas, em desfile, ao final da manhã, Tejo arriba até Constância. E, como no tempo dos marítimos, o que se celebra em cada Páscoa, no encontro do Zêzere com o Tejo, é esse encontro do Tejo todo, desde aqui ao Mar da Palha.
Ao contrário de muitos outros cultos, praticados em dezenas de locais do Ribatejo, que foram desaparecendo por força da descristianização e do fenómeno de Fátima, a Festa da Senhora da Boa Viagem não só não morreu como se revitalizou e ganhou novos fiéis que têm a vinda a Constância, em segunda-feira da Páscoa, como um compromisso de calendário consigo próprios, em busca de uma bênção que lhes conforte a vida até à Páscoa seguinte.
A Festa da Senhora da Boa Viagem merece que dela se diga bem. Porque não é uma festa qualquer: é um caso de longevidade – de resiliência, como se diz agora –, que segue o seu caminho, como a vida, transportando as memórias do passado longínquo e adaptando-se aos novos tempos, acrescentando-se com o que somos nós hoje. E, a bem dizer, realizando-se em Constância não é uma festa de Constância. A foz do Zêzere é apenas o lugar mágico onde acontece, em cada Páscoa, a grande Festa do Tejo. ―

Marca d’ Água Opinião de Alves Jana: “Pôr em questão”

crónica_Alves Jana

1. Eduardo Lourenço disse há pouco (Expresso, 9.1.16) que “a cultura não é a resposta, é a questão”. Certo. Ou melhor, certo em parte. Porque toda a questão traz já em si, em boa medida, a resposta que permite. Mas Eduardo Lourenço quis sobretudo dizer que a cultura não é, por exemplo como a técnica, respostas prontas a usar. Pelo contrário, a cultura é um pôr em questão as respostas instaladas num “diálogo” permanente “que a humanidade tem consigo própria” (E. L.). Por isso, diz, a cultura “é uma construção”.
Cultura não pode, portanto, ser reduzida ao divertimento, ao entretenimento, nem sequer à educação no sentido de modelar de acordo com uma ordem instituída.
Se a cultura é “a questão”, a acção cultural terá de ser um pôr em questão. Logo, não uma reprodução do que está, mas um exercício de criatividade em que se propõe que seja algo diferente do que é posto em questão. A actividade cultural é, por natureza, provocação, isto é, “chamada para” algo que se anuncia.
2. Eduardo Lourenço é muito claro: a cultura é “uma espécie de diálogo, o da humanidade consigo própria”. Não é um acontecimento fechado, de um criador consigo próprio e com a sua obra. Nem, tão pouco, de um criador com o mercado, por exemplo o mercado das artes. A cultura só chega verdadeiramente a sê-lo se subir à praça pública e, aí, provocar a humanidade, nem que seja nesse segmento particular, a pôr-se em questão em alguma das suas formas de vida. E, se me permitem a ousadia, provocar para que possa subir um degrau, não para descer. Que seria em direcção à barbárie.
3. A cultura é sempre esse movimento do estado selvagem para o estado – mais – cultivado. E há sempre muito se selvagem nas diversas formas de vida. Sobretudo se as compararmos com o mais elevado que poderiam ser. E, sempre, a cultura é um trabalho de resistir ao movimento que puxa para baixo, para o mais primitivo que há em nós, e sobretudo de insistir no esforço de elevação da selva para uma cidade mais humana.
4. E esta selva não está lá longe, no espaço ou no tempo, mas por dentro de nós próprios como eco dos tempos primitivos em que ainda não éramos verdadeiramente homens. E não é verdade que tantas vezes não o chegamos a ser, ainda hoje?
5. A acção dita cultural começa por ser darmo-nos conta disso e continua sendo o trabalho qualificado da humanidade que em nós quer florescer, mas sempre precisa de ser jardinada. Como qualquer jardim, também este, se não for cuidado, é invadido e torna-se selvagem. Não, nem tudo é trabalho cultural. Mesmo que neste tempo sejam múltiplas as formas possíveis de um jardim, nenhum jardineiro se demite de cuidar de que o seu jardim não o envergonhe. Não, um bom jardim não é um terreno baldio com ervas a crescer sem critério. Todo o jardim é uma forma elaborada de humanidade.