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VN Barquinha: O mundo encantado de Mona Martins

O que têm em comum a mascote do Benfica, a Águia Vitória, que acena antes e depois dos jogos no estádio da luz, com o Panda que leva as crianças ao rubro, com o Falco, a nova mascote da Polícia de Segurança Pública, ou até a camisola gigante que vestiu a estátua do Marquês de Pombal para os festejos do bi-campeonato de futebol do Benfica em 2015? Todos foram produzidos no simpático atelier de Mona Martins, em Vila Nova da Barquinha

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TEXTO E FOTOS: Ricardo Alves

Mona Martins é a alegria em pessoa. Com o seu sotaque brasileiro, que para os portugueses soa a samba, sorrisos feitos palavras e frases, Mona Martins recebe o NA no seu atelier, em plena Vila Nova da Barquinha. Ali, haveremos de ser surpreendidos, produzem-se algumas das mascotes e símbolos que povoam o imaginário de miúdos e graúdos. No fundo, o trabalho de Mona Martins, que não se esgota nas mascotes e fatos para deleite das crianças, apela à criança que existe em nós.

“Tente não tirar fotos ao longe das cabeças das mascotes”, diz-nos Mona Martins sorrindo. A explicação é óbvia. Não se fazem reportagens destas para desencantar e desconstruir uma imagem de criança. Os “bonecos” são para serem apresentados unos, como se reais, como vistos na TV. Uma criança não distingue e não tenta saber quem está dentro do fato. “Quem” é o Panda, ou qualquer outra mascote que se movimente no ecrã ou em eventos promocionais. Fotografar apenas a cabeça do Panda, desprendida do seu corpo, seria um “choque” e uma “confusão” para as crianças.

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O Panda

E é por elas que Mona trabalha incessantemente no seu atelier. No entanto, a viagem até Vila Nova da Barquinha, começou há cerca de 8 anos. Brasileira, de São Paulo, veio para Portugal em 2007 para fazer um mestrado em escultura, em Lisboa, na Faculdade de Belas Artes. Na altura vivia em Cascais mas “já tinha visitado Portugal por três vezes”, diz Mona, que se mostrou e mostra encantada com o país. “O meu grande sonho era morar no Alentejo. É engraçado porque as pessoas querem estar onde há muita gente mas eu não. Eu quero ficar onde não tem gente!”, diz entre sorrisos.

“As pessoas não têm esta consciência do tão perfeito que é você acordar e ter mato, e ter pássaros e oliveiras e… tempo. Porque o seu tempo começa a dividir-se ali, dentro daquele processo. Eu pego no carro e vou a Fátima, vou a Abrantes, estou central. Eu já achava que Lisboa é um quintal…” diz quem nasceu em São Paulo, cidade com mais de 11 milhões de habitantes e que é o centro financeiro e mercantil da América do Sul.

Uma paixão crescente

Nas comparações somos deparados com outras características do nosso país que poucas ou nenhumas vezes valorizamos, de tão sedimentadas que estão. “Em Portugal, como nos outros países da Europa(…) eu não conseguia compreender porque as ruas são limpas, as pessoas são tranquilas, porque pode sentar na rua para tomar um café, sabe? Você fica a pensar porque você pode passar num farol à noite e nada te acontecer. Porque pode tirar a sua máquina fotográfica e tirar uma foto e não ser assaltado, morto, violentado ou qualquer coisa desse tipo”.

Estas e outras razões de encanto fizeram com que Mona Martins se estabelecesse no centro do país, em Vila Nova da Barquinha. Para trás deixou o atelier “Casa do Trem”, criado quando ainda frequentava o liceu e em parceria com outros colegas. Acabou por deixar o atelier, ainda hoje em funcionamento, porque “financeiramente é complicado justificar IRS no Brasil e aqui”.

Uma vez em Portugal, de mente decidida a por cá fazer carreira, Mona enceta numa cruzada por contactos, envio de currículos, a “tactear” o panorama publicitário do país. “Quando eu comecei aqui não tinha muita intenção de trabalhar exactamente com isto. A minha primeira intenção era trabalhar no cinema pois vinha do cinema publicitário de São Paulo, em que gravávamos dois a três comerciais por semana e com diárias altíssimas. Se hoje comparar o que ganho com o que ganhava… sempre ganhei muito menos aqui. Mas esse muito menos se tornou muito mais: qualidade de vida, segurança, tranquilidade, vida! Na sua essência.”, diz-nos sem assombro.

Também tacteava o país. Começou a visitar algumas capitais de distrito alentejanas como Évora e Beja, “lindíssimas”, e começou a aperceber-se que “os imóveis eram muito baratos”. Na altura queria comprar “um monte e dormir debaixo de uma árvore, punha lá um saco e dormia lá, mas os meus amigos diziam “aqui você não pode fazer isso”. Não pode como?!?”, conta entre gargalhadas.

Depois com o tempo foi “ficando por aqui e o meu filho veio também , o João, que terminou aqui o liceu e entrou na universidade. Aí comecei a conhecer o norte do país… às vezes é muito difícil me localizar porque acho que isso aqui tudo é uma cidade. Sair daqui e comprar linha no Porto, meu Deus, são duas horas e vinte de carro!”, exclama Mona Martins perante a proximidade.

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Os sapatos de Falco, mascote da PSP, quase prontos.

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Um lugar ao sol português

A carreira de Mona levou-a a percorrer áreas como o cinema, escultura, figurino (construção de bonecos, mascotes), cenografia. Trabalhou também como “carnavalesca da Escola de Samba do Grupo Especial de São Paulo, durante dois anos,  e antes disso ainda fui escultora em algumas grandes escolas de samba”. Deu aulas na Universidade, num curso de dança e de cénicas. Foi nesse percurso que absorveu as técnicas para aplicar no processo actual, “o figurino, a roupa , o objecto de cena sempre me encantou bastante, foi aí que acabei parando no cinema publicitário, que foi muito interessante, e trabalhei com todas as produtoras de cinema publicitário de São Paulo”.

Em Portugal não existe um segmento publicitário de grande dimensão, com as grandes marcas a optarem por dobragens de anúncios internacionais e sem uma adequação e adaptação ao identitário português. O mercado dita as regras e num mercado como o brasileiro, em que a concorrência é enorme, em que há duas centenas de milhões de consumidores, quem não se diferencia perde a quota de mercado. Por cá, Mona percebeu essa ausência, mas também “percebi que havia uma lacuna muito grande na questão publicitária. Podia fazer figurinos publicitários. E fui por aí”.

Após pesquisar por quem fizesse esse tipo de trabalho em Portugal chegou a pensar que poderia “trabalhar para essas pessoas, enviar currículos”. Mas o caminho era a solo. “No meio da pesquisa surge a oportunidade, me perguntaram se conseguia fazer “esse” figurino”. Claro que consigo! Então pode fazer. A partir daí cada coisa foi seguindo a outra, e com um site feito caseiramente na internet, uma coisa foi puxando a outra. E aqui tem uma coisa boa, você pega no telefone e fala com o departamento de criação da Nestlé. No Brasil isso não é possível, nunca. É uma dimensão inalcançável. Não é que não tenha trabalho, as pessoas vão-te buscar. Se você tem um trabalho de qualidade e diferenciado, você vai morar numa caverna na Tasmânia mas se o cara quer comprar aquele botão específico, feito com osso do bezerro da única vaca que cria de seis em seis  anos, pode ter a certeza que o cara vai-te encontrar. Esta questão da globalização deixa as pessoas atarantadas e a pensar que já tudo foi feito. Foi nada!!”.

 

Trabalho? Encantar!

No atelier, enquanto decorre a entrevista, uma colaboradora de Mona costura cuidadosamente os sapatos de “Falco”, a nova mascote da PSP. Sapatos pretos e grandes, com a cabeça sorridente e tranquila, amiga, de Falco a olhar para nós. A um canto, cuidadosamente embrulhada em plástico, está a cabeça do Panda, junto ao Mickey e à Mini da Disney. Por entre a maquinaria e linhas de todas as cores, sapatos gigantes e coloridos repousam nas estantes. Do atelier de Mona Martins saem as figuras que preenchem o imaginário de muitos milhares de crianças portuguesas. Só para o Canal Panda, que tem sede em Espanha e não tinha fornecedor em Portugal para o seu canal no nosso país, Mona Martins produz o Panda (há seis anos) o Kinkas, o Micas, o Pintas, o Crocas, o Panças ou o Juba, entre outros.

Do seu portefólio extenso, realce para os graúdos benfiquistas. Quem vestiu o Marquês de Pombal na festa do bi-campeonato foi Mona, que nos mostrou as fotos da produção. Uma camisola encarnada gigante a que junta a mascote do clube, a Águia Vitória. O urso polar da Coca-Cola, o Yoco da Nestlé, os animais tresloucados de “Um Bongo” entre muitos outros, saem do seu atelier.

“O que me mantém é a possibilidade de encantar. Já assisti a muitos episódios do Panda e outros e estou sempre a medir os fatos. E se estou a passar na rua e vejo uma mascote minha eu caio no chão! Viro uma criança, gosto muito!”, conta-nos emocionada.

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A Águia Vitória do Sport Lisboa e Benfica

Do atelier de Mona saem também muitas mascotes para aluguer, com uma variada e extensa panóplia de opções, como poderá perceber no seu site www.monamartins.com. Quem quiser fazer uma surpresa às suas crianças, numa festa de aniversário ou outro evento de celebração pode contactar o atelier e alugar um fato.

Para além do seu trabalho mais técnico, Mona Martins mostrou-nos outros trabalhos, mais pessoais, como o que agora lhe ocupa o tempo, feito “com resina de poliéster, com tudo o que já foi usado”. Faz vestidos da mulher portuguesa, miniaturas,  “é o meu olhar do feminino e da indumentária portuguesa, gosto muito do visual da mulher portuguesa, fiquei admirada. O objectivo é usar o que já foi usado, reciclar”, conta a criadora que sonha abrir em Vila Nova da Barquinha um Atelier e Centro de Artes, para quem queira aprender as suas artes, tecer sonhos, criar a sua própria roupa, moda. Até lá, se quiser conhecer melhor o trabalho de Mona Martins, directamente de Vila Nova da Barquinha para os corações da criançada, basta ligar a televisão no Canal Panda. Já ligou? Se sim já se encontra no Atelier Mona Martins.

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Mona Martins posa com um de dezenas de sapatos que repousam nas estantes do seu atelier