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Crónica: As hortas de fogo e as florestas de chamas

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Dois bombeiros de Olivais e Portela conversam com o NA junto a um conjunto de pequenas pinheiras em Madeiras, concelho de Vila Nova da Barquinha. É terça feira, dia 7, 19h00. As pinheiras salvaram-se mas todos os cuidados são poucos. Outros bombeiros, da mesma corporação, tentam acalmar um sobreiro que teima em não descansar as labaredas. As poucas oliveiras que ali existem ainda fumegam e assim ficarão durante as próximas 48 horas. No fundo do pequeno vale, onde as pinheiras na encosta tentam sacudir as cinzas, o canavial ainda esperneia, com estalidos de guerra. Os dois bombeiros de Olivais e Portela contam que horas antes, de manhã, tinham falado de Abrantes e Constância e do fato de há algum tempo não terem notícias das chamas por aí. Horas depois eram chamados para ajudar os colegas, juntando-se aos cerca de 500 operacionais no terreno que combatiam as chamas ferozes que viajaram do concelho de Tomar, pululando de encosta em encosta ao sabor do forte vento.

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Há muito combustível para arder, basta começar”, dizia um dos bombeiros enquanto bebia de uma garrafa de leite. É cíclico, parecia querer dizer o outro bombeiro, de cara tapada com um lenço branco encardido. “Vai ser um Verão terrível”, finalizou cabisbaixo, antes de se juntar aos colegas que acalmavam o sobreiro. No fundo do pequeno vale encontram-se populares, que estiveram junto às pinheiras e um conjunto de imponentes eucaliptos que escaparam à fúria das chamas. Foram eles, cerca de quatro, que se mantiveram junto às pinheiras, perto de uma casa abandonada e que é há alguns anos “habitada” por um senhor peculiar, um ermita quase, que afugentaram as chamas e as impediram de galgar a encosta, quiçá saltando a estrada para uma zona de quintas e fazendas. Com pequenos ramos arrancados de oliveiras e das próprias pinheiras, os populares aguardaram por um bafejo menos enérgico do vento e atacaram as chamas que prosseguiam rasteiras. Ali se deteve, mas as chamas arrepiaram caminho por entre o vale, sentindo não serem desejadas daquele lado do monte.

Cerca de uma hora antes olhava-se o fumo na estrada que dá acesso a Limeiras. Os bombeiros e Guarda Nacional Republicana fecharam a estrada. A poucas dezenas de metros as chamas devoram tudo. O vento sopra forte, muito forte, e com laivos de soberano, rosna noutras direções, inconstante. Quando chega a um campo aberto, de mato alto e seco, o fogo ganha asas, velocidade. O vento antecipa-lhe os passos e muitas vezes se vê as chamas a aparecer dez, vinte metros mais à frente, como se uma corrida de velocidade se tratasse. Um habitante encontra-se no topo de um largo monte de terra e veste-se de branco. Não dá para vislumbrar o que é. Atrás de nós uma vizinha diz preocupada, “vai ver das abelhas!”. Pôs o capacete e máscara de apicultor e desapareceu por detrás do monte. O fogo lavrava a cem metros. Não se sabe se salvou as colmeias, mas não há vítimas mortais do fogo, “apenas” sete pessoas ficaram feridas, dois civis e cinco bombeiros.

Para trás ficou a aldeia de Portela, no concelho de Tomar, onde tudo começou por volta das 12h50. Em Vila Nova da Barquinha, mais tarde, soariam as sirenes, frenéticas. Um contato do NA com os Bombeiros Voluntários da vila fez saber o pior: “entrou agora no concelho, está no Cafuz!”. Três dias depois, o lugar está irreconhecível. Também as Limeiras, Constância e Montalvo. Depois da Portela, Tomar, o incêndio alastrou aos concelhos vizinhos de Vila Nova da Barquinha, Constância e Abrantes.

Os 500 operacionais apoiados por 147 viaturas e algumas máquinas de rasto e sete meios aéreos não tiveram mão as medir. Na noite de terça feira ainda o fogo se mantinha forte. A parte alta de Constância, junto às escolas e também aquela junto ao Centro de Ciência Viva e Quinta de Sta Bárbara, foi dizimada. Horas antes, pelas 17h00, as chamas chegaram ao concelho. Os bombeiros concentraram-se nas habitações, na salvaguarda das casas das pessoas, priorizando aquelas que são de primeira habitação. Em Tomar ardeu uma viatura de um “curioso”, que quis ver de bem perto as chamas e não contou com o bafejo destemido do vento. Outras duas terão ardido, pelas mesmas razões.

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Na noite de terça-feira, Constância, a vila poema, parecia em estado de sítio. Coberta de um fumo espesso e “adornada” pelas luzes das viaturas de socorro que repousavam nas suas ruas. As chamas viam-se ora fortes, ora calmas, mas deixavam de se ver. Do outro lado do rio, a sul, são avistadas mais chamas, prontamente combatidas pelos bombeiros. A A23 está cortada, a ponte que liga os concelhos de Vila Nova da Barquinha e Constância, para a vila, também já esteve cortada, bem como a A13. Ninguém passa pelas estradas que dão acesso a Castelo do Bode, por Constância, e a Madeiras e Limeiras, pela Barquinha. O incêndio “passeia” altivo e gozão por cima do seu eterno inimigo, a água, do Zêzere, fazendo pouco caso dos homens e mulheres que abnegadamente nos tentam proteger dele.

A noite trouxe, no entanto, alguma calma. Mas os rostos dos bombeiros não tranquilizam quem se detém a olhar mais de dois segundos para eles. A noite será longa. Os populares fazem o rescaldo visual, caravanas de curiosos “passeiam” pelos escombros de janelas fechadas e ar condicionado ligado. No topo de Constância tudo fumega. O caminho até ao Centro de Ciência Viva é desolador e assemelha-se a uma procissão, com pequenos focos de chamas que devoram lentamente as estacas colocadas ao longo da estrada.

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Quarta-feira, dia 8, acorda com o mesmo cheiro. A tensão é menor mas teme-se o aumento do calor com o desenrolar do dia. Há bombeiros que dormem nas paragens de autocarro de Limeiras, debaixo de árvores que escaparam às chamas, nas sombras desenhadas pelas casas antigas de Constância. De manhã, em Madeiras, houve um de vários reacendimentos. A besta queria mais, nomeadamente as tenras e jovens pinheiras. Os Bombeiros, em alerta, acorreram prontamente e placaram a investida, quiçá planeada de dentro do sobreiro.

Era hora de almoço – se é que nestas alturas se pode marcar hora de almoço – e os bombeiros acalmam o estômago com a fruta, as bebidas e demais alimentos que os populares assolados lhes dão. Pouco depois das 14h00, uma coluna de fumo irrompe pelo horizonte. O NA está em Constância, junto ao Zêzere. Madeiras arde de novo, pensamos, um reacendimento, lamentamos.

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As sirenes voltam a soar e os motores aceleram pela ponte. Seguimos o seu rasto até junto da ponte que atravessa a A23, em Madeiras. O fogo alastra no que parecem ser os terrenos dentro do perímetro da Base Aérea de Tancos, junto à pista. O NA segue para a reta que, normalmente, alberga os curiosos dos aviões. Desta vez as razões para a concentração de viaturas e populares é outra. O fogo está dentro da base e, incrivelmente, saltou o asfalto da pista e queima pequenos arbustos a cinquenta metros da cerca. Viajou numa fagulha e ali aterrou e se instalou, a cerca de 700 metros de onde começou a arder. Os presidentes da junta de Freguesia de Praia do Ribatejo e da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, olham incrédulos e preocupados. Por cima das cabeças voam cinzas, pedaços de árvores, uns ainda em brasa, outros à espera de pousar e serem apenas pó.

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Perguntamos se foi um reacendimento ou se foi uma projeção do incêndio de Tomar. “Não”, responde prontamente o proprietário do Restaurante “O Almourol”, “foi um camião que se incendiou na A23 e passou as chamas”. Não bastava o “outro” indomável. Os populares fala no paiol e relembram uma grande explosão há muitos anos atrás, que partiu vidros de janelas dos habitantes de Madeiras e Fonte Santa, e que levou mesmo à evacuação por precaução da população residente. Não valia a pena semear o pânico. Os militares avisariam se tal fosse necessário. Não foi.

O fumo negro permanece em maioria. O branco dá ares da sua graça muito intermitentemente. Mais viaturas acorrem ao local, por estradas sinuosas, de terra e “calhaus”, acercando-se do local à lenta velocidade permitida. Os militares dentro da Base tentam que as chamas não ataquem a antiga Base Aérea 3. O trabalho prosseguiria durante a tarde com todos os cuidados a serem poucos. Um dia depois, na quinta feira, dia 9, aconteceria novo reacendimento, na junto à localidade de Sobrado, no limiar dos concelhos de Tomar e Vila Nova da Barquinha. Entretanto, tudo se acalmou.

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Durante três dias viveu-se um pesadelo. As populações viram as suas ruas e estradas adornadas de cinzento, num ápice. Para muitos que moram nos locais afetados, foi-se parte da subsistência, uma pequena horta aqui, uma fiada de eucaliptos ali, sobreiros, árvores de fruto, entre outros. A incredulidade juntou-se à impotência. No Cafuz, Matos e Limeiras, o cenário outrora verdejante, a vegetação que dava uma imagem de beleza às encostas que só acabam no Rio Zêzere, foi substituída pelo negro. Em Cafuz, uma equipa de reportagem da TVI montou câmera numa curva da estrada, no meio de um dos vales assolados. O pivot, de costas para a paisagem e para o curso do Zêzere, entrou em direto. Munido de um papel com anotações, lá gravou a sua peça para enviar para a regie do canal.

Leu, gravou, enviou. Não precisava de ler nada, apenas ficar parado em frente à objetiva e deixar que o cinzento a perder de vista falasse por si. Três dias para esquecer que é bom que não sejam esquecidos. O verão ainda não vai alto mas o inferno já desceu à terra. Todo o cuidado é pouco.

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Texto e Fotos: Ricardo Alves

Barquinha: Carlos Gonçalves deixa Bombeiros com “sentimento de dever cumprido” mas também alguma “mágoa”

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Carlos Gonçalves é desde o início de Fevereiro o novo comandante dos bombeiros municipais de Tomar depois de 24 anos como comandante dos voluntários de Vila Nova da Barquinha. Sai com mágoa mas muita motivação para o novo desafio

Deixa a corporação de VN Barquinha com o sentimento de dever cumprido mas gostaria de ter tido a oportunidade de preparar as comemorações dos seus 90 anos. Em mãos tem uma “proposta profissional aliciante” mas leva mágoa pelo modo como foi tratado ao fim de 24 anos de serviço como comandante, numa carreira que começou antes, quando entrou como cadete.

Carlos Gonçalves, que também foi recentemente eleito para um segundo mandato como presidente da Federação Distrital de Bombeiros, admite que “fazer uma interrupção na minha vida profissional aqui na Câmara (VN Barquinha) deixa-me algum peso significativo e emocional”, mas sai com o sentimento “de dever cumprido, com toda a consciência deixo uma instituição com um património do qual muita da responsabilidade é minha e não abdico de assumir, deixo um activo financeiro muito interessante”, na ordem dos 300 mil euros.

A mágoa, contou ao NA o novo comandante dos Bombeiros Municipais de Tomar, não é relativa ao geral, mas sim de um passado recente, nomeadamente os últimos três anos, “não fui reconhecido pela entidade detentora, pelos bombeiros, que não me tratou com a consideração que eu acho que mereço. Também é um peso que eu acho que me leva a tomar algumas decisões, mas a parte profissional, o projecto que me foi colocado, pesa bastante na decisão”.

Instado a detalhar os motivos das suas palavras, Carlos Gonçalves não se quis alongar. No entanto, apesar de relutante, deixou escapar que “o último mandato da direcção que cessou não me tratou com o devido respeito e mais não posso dizer”.

Fazendo uma retrospectiva do seu trabalho em VN Barquinha, Carlos Gonçalves contou que nunca teve necessidade de se pôr em biscos dos pés mas perante os recentes acontecimentos disse que ”sendo eu o comandante nunca me senti proprietário de nada”, “exceptuando um período ou outro de férias, todas as noites eu passei pelo quartel, todos os sábados, todos os domingos”, e afirma que “mesmo nos últimos três anos sofrendo eu na pele algum tratamento menos correctos, não houve da minha parte uma lamúria que tivesse extravasado os portões do quartel de bombeiros”.

Para já, é o seu ex-adjunto, Jorge Gama, que vai assumir as funções de comandante, “não sei se será ele a assumir o lugar de comandante no futuro ou se será outra pessoa”, mas a direcção fica bem entregue, “o tenente-coronel António Ribeiro parece-me uma pessoa extremamente competente e isso deixa-me feliz, é uma pessoa coerente, com uma postura antagónica à pessoa que ele foi substituir e que tem todas as premissas para se conseguir fazer um bom trabalho”, antevê.

 “Eu e o Major Júlio Gomes, que foi presidente da direcção durante 19 anos e da Liga dos Bombeiros, fomos as pessoas na história desta direcção que mais alto chegaram na estrutura hierárquica dos bombeiros portugueses”, afirma Gonçalves perante a injustiça que sente mas olhando o presente diz que  “o meu trabalho vê-se recompensado com esta confiança que a Câmara Municipal de Tomar deposita em mim”.

Em Tomar vai ter um “corpo de bombeiros mais profissional, que está na dependência directa da Câmara Municipal, portanto é um serviço municipal, e vou passar a chefe de divisão. Também aqui diria que o meu desafio é profissional”, diz Gonçalves que era há muitos anos técnico superior na câmara de VN Barquinha.

A Câmara Municipal de Tomar, na sua reunião de 19 de Janeiro, deliberou por unanimidade a constituição do novo comando dos seus Bombeiros Municipais e Carlos Gonçalves terá como 2.º Comandante Vítor Manuel Tendeiro Tarana, e como Adjuntos de comando Vítor Manuel Pereira Bastos, Carlos António Duque Rodrigues e Paulo Alexandre Pereira de Freitas.

TEXTO&FOTO: Ricardo Alves

Carlos Gonçalves confirmado como novo comandante dos Bombeiros de Tomar

A Câmara Municipal de Tomar, na sua reunião de 19 de Janeiro, deliberou por unanimidade a constituição do novo comando dos Bombeiros Municipais de Tomar e cujo comandante passa a ser Carlos Alberto Ribeiro Gonçalves, que desempenhava as mesmas funções nos Bombeiros Voluntários de Vila Nova da Barquinha.

Da deliberação saíram os restantes membros: 2.º Comandante – Vítor Manuel Tendeiro Tarana, Adjuntos de comando – Vítor Manuel Pereira Bastos, Carlos António Duque Rodrigues e Paulo Alexandre Pereira de Freitas

O novo comando dos Bombeiros vai entrar em funções no dia 1 de Fevereiro.

895_Bombeiros de Óbidos - Foto Arquivo CMO
Foto: DR