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A Bem Dizer, Opinião de António Matias Coelho

crónica_António Matias Coelho

“Senhora da Boa Viagem, A Grande Festa do Tejo”

As festas são como as pessoas: distinguem-se pela sua personalidade, pelas características próprias, pela forma como se dão e como acolhem os outros, pela sua dignidade. A Festa da Senhora da Boa Viagem, que se celebra pela Páscoa de cada ano em Constância, pelo que é e pelo que representa, assume-se como um caso verdadeiramente especial no panorama das festas do Médio Tejo.
Começou por ser uma festa de marítimos, iniciada no século XVIII, quando o transporte de mercadorias se fazia essencialmente por via fluvial e Punhete (agora Constância) era um dos mais movimentados e importantes portos desta parte do Tejo. Embarcados para viagens demoradas e perigosas, em especial durante o inverno, daqui para Lisboa e voltar, os marítimos sabiam bem que nem sempre as capacidades humanas são suficientes para aplacar as forças da natureza. E então, precavendo-se, entregavam-se à sua protetora, esperando que por intervenção dela o Céu lhes garantisse boa viagem. Assim, em chegando a semana santa, os barcos de Constância começavam a aportar à vila, como gaivotas em busca de proteção, e os marítimos desembarcavam para a sua única pausa do ano – para se confessarem, participarem nas cerimónias da Paixão e celebrarem a Páscoa. Ficavam em terra uns dias para reverem as famílias e os amigos e para retemperarem forças. E, já passada a Páscoa, na segunda-feira, para fazer a festa à Senhora da Boa Viagem, trazendo-a em procissão da matriz até aos rios para a Bênção dos Barcos. Assim se fechava um ciclo e se abria outro: os marítimos agradeciam à Senhora a proteção concedida no ano que terminava e imploravam-na para o ano que se seguia. E depois voltavam ao mar mais confortados.
Nesse tempo, à Bênção dos Barcos de Constância acorriam muitas embarcações de outros portos do Tejo, do Rossio, de Rio de Moinhos, de Tancos, da Barquinha, da Ribeira de Santarém, de Valada e de outros mais. Vinham aqui porque daqui tinham a convicção de levar o que em nenhum outro sítio poderiam encontrar: a bênção protetora para a viagem da vida.
Passado o tempo do transporte fluvial, devido à chegada do caminho de ferro e, sobretudo, das camionetas de carga, os barcos foram acostando e os marítimos, sem futuro, tiveram de mudar de vida. Estávamos nos anos ’60 do século passado. A Festa da Senhora da Boa Viagem passou então por um longo período de decadência e, a meio dos anos ’80, estava reduzida à sua expressão mais simples: a procissão com as pessoas da terra e a Bênção dos Barcos dada a duas ou três embarcações da vila, agora de pescadores. E só não definhou por completo porque a Paróquia e o povo a acarinharam e persistiram em a fazer.
Foi então que o município decidiu intervir. Não, evidentemente, para mexer na essência da Festa, que é religiosa e assim há de continuar a ser. Mas para, respeitando-a, a reanimar e a promover, enaltecendo o seu significado e a sua dignidade e criando em torno dela, no fim de semana da Páscoa, um conjunto de acontecimentos festivos próprios deste tempo que vivemos. Foi assim que nasceram as Festas do Concelho.
Como no tempo dos marítimos, agora a convite da Câmara de Constância, passaram a vir à Festa barcos de todo o vale do Tejo, representativos das comunidades dos 21 concelhos ribeirinhos, de Abrantes até Lisboa – o caminho dos barcos-de-água-acima de séculos e séculos de transporte fluvial. Porque não é navegável o Tejo, juntam-se os barcos no cais de Tancos, trazidos em camiões e postos a navegar com a ajuda de uma grua da engenharia militar. Daqui seguem engalanadas, em desfile, ao final da manhã, Tejo arriba até Constância. E, como no tempo dos marítimos, o que se celebra em cada Páscoa, no encontro do Zêzere com o Tejo, é esse encontro do Tejo todo, desde aqui ao Mar da Palha.
Ao contrário de muitos outros cultos, praticados em dezenas de locais do Ribatejo, que foram desaparecendo por força da descristianização e do fenómeno de Fátima, a Festa da Senhora da Boa Viagem não só não morreu como se revitalizou e ganhou novos fiéis que têm a vinda a Constância, em segunda-feira da Páscoa, como um compromisso de calendário consigo próprios, em busca de uma bênção que lhes conforte a vida até à Páscoa seguinte.
A Festa da Senhora da Boa Viagem merece que dela se diga bem. Porque não é uma festa qualquer: é um caso de longevidade – de resiliência, como se diz agora –, que segue o seu caminho, como a vida, transportando as memórias do passado longínquo e adaptando-se aos novos tempos, acrescentando-se com o que somos nós hoje. E, a bem dizer, realizando-se em Constância não é uma festa de Constância. A foz do Zêzere é apenas o lugar mágico onde acontece, em cada Páscoa, a grande Festa do Tejo. ―

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