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Vincent Glowinski leva “Human Brush hoje a Abrantes. Imperdível

O palco está montado e salta à vista a enorme tela e palco no qual Vincent Glowinski promete uma atuação memorável. São os Caminhos da Água, de 13 a 16 de julho, em sete concelhos do Médio Tejo

Capa Human Brush

O conceituado artista belga traz à região o seu espetáculo Human Brush. Em palco, Vincent move-se e os seus movimentos criam todo o tipo de figuras numa tela gigante. A camera que o observa mapeia os seus movimentos e recria-os na tela. Em Abrantes, dia 13, quinta feira, pelas 22h00, na Praça José Raimundo Soares e em Montalvo (Constância) na Quinta D. Maria no dia 15 de julho, sábado pelas 22h00, Human Brush deixará a sua marca num espetáculo único que cria uma atmosfera densa mas libertadora.

capicua

Mas pelas ruas, praças, praias fluviais, grutas entre muitos outros locais, passarão muitos outros artistas. Na música as propostas são Capicua e Pedro Geraldes com o Projeto “Mão Verde” Birds Are Indie, Lavoisier, Batida, Contatinas e Drama e Beiço.

Erva Daninha traz novo circo, Lama leva o teatro de local em local, desde praias a praças, passando por zonas verdes e nascentes com “Carripana”, a companhia Radar 360 regressa com o Baile dos Candeeiros e o Teatro de Ferro apresenta “Olo, um solo sem S” em Abrantes. O Teatro do Frio realiza “Concerto para Estrelas” em Constância e Vila de Rei.

batida

O conceito do Caminhos também é o de dar oportunidade ao visitante de fazer o seu próprio roteiro, escolhendo locais e espetáculos tendo em conta o mesmo.

Em Outubro, o Caminhos regressa com a Pedra. O projeto da CIMT é co-financiado pela União Europeia no âmbito do programa de apoio Portugal 2020. A CIMT é composta pelos municípios de Abrantes, Alcanena, Constância, Mação, Sardoal, Vila de Rei, Vila Nova da Barquinha, Ferreira do Zêzere, Sertã, Torres Novas, Ourém, Tomar e Entroncamento.

Todo o programa em http://caminhos.mediotejo.pt/

baile dos candeerios

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Médio Tejo: Caminhos do Ferro como primeiro passo

Ricardo Ribeiro, Aldara Bizarro, Galandum Galundaina, Teatro do Ferro, Baile dos Candeeiros, O cão que corre atrás de mim (e o avô Elísio à janela), Erva Daninha, Marina Palácio, Yola Pinto, Violant, Paulo Carmona, Sopa Nuvem, são apenas alguns dos espetáculos e artistas que de 11 a 16 de abril estarão em exibição nos Caminhos do Ferro, iniciativa da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIM Médio Tejo) e os seus treze municípios.

Ricardo Ribeiro

A CIM Médio Tejo criou, no final de 2016, o Comissariado Cultural do Médio Tejo (CC) tendo por objetivo estruturar o tecido cultural da região e lançar-lhe o desafio de aumentar a sua escala de acção, trabalhando em rede entre municípios.

O projeto Caminhos, fruto do trabalho desenvolvido pela CIM Médio Tejo, CC e Municípios, baseia-se em três anos de programação (2017, 18 e 19). Em cada um destes anos haverá três momentos de programação. O Caminhos subdivide-se em três momentos anuais: os Caminhos do Ferro, nos próximos dias 11 a 16 de abril, da Água (Julho) e da Pedra (Outubro).

Cada um destes caminhos, dentro do Caminhos, tem uma temática artística: em Abril a Dança, em Julho a Música e em Outubro o Teatro. Os caminhos dentro do Caminhos são definidos pelas vias de comunicação, no caso do Ferro as linhas ferroviárias, da Água os rios, da Pedra as auto-estradas e vias rápidas.

Co-finaciado pela União Europeia, Portugal 2020 e Centro 2020, o Caminhos tem o mote “Médio Tejo, uma região a caminho”. Esta ambivalência esteve e está presente em toda a estruturação do projecto. Não só  “a região administrativa Médio Tejo, recente e desprovida de identidade que só o tempo pode oferecer, carece de uma afirmação junto dos cidadãos e cidadãs, como a região, geográfica e turisticamente está a caminho. Nenhuma região está tão próxima de todo o país como o Médio Tejo”, “estamos a caminho, atravessam-nos viagens, tocam-nos cruzamentos. Como nenhuma outra”, afirmou um dos comissários, Ricardo Alves.

yola pinto

Luís Ferreira, outros dos comissários do projeto, disse que o projeto “é complexo” tendo destacado a “novidade” de uma “programação cultural em rede” nos 13 municípios que integram a CIMT e o objetivo de “implementar uma oferta cultural que possa igualar a excelência do património material e imaterial existente” na região do Médio Tejo, no distrito de Santarém.

A rede ‘Caminhos’ “integra três roteiros de formação e animação cultural associados a elementos que unem a região internamente e fortalecem a sua ligação ao mundo”, destacou o comissário cultural, “serão três grandes caminhos, três ciclos de programação em cada ano, que se desenham sobre três vias de acesso que afirmam o Médio Tejo, não apenas como lugar de enorme valor patrimonial, mas como património acessível para ser vivido”, sublinhou Ferreira, tendo feito notar que “o turismo é uma das áreas em que a CIM do Médio Tejo aposta para o desenvolvimento da região, pretendo potenciar novos contactos e promover os seus destinos”.

O projeto, orçado em “algumas centenas de milhares de euros” para os três anos de duração, visa “deixar lastro junto das comunidades para que estas possam ficar mais apetrechadas e capacitadas para as práticas culturais no futuro”, através de interação entre artistas e populações, e “com espetáculos a decorrer em fins de semana alargados, junto de locais de referência patrimonial, e em outros menos óbvios, como seja em grutas, barcos, castelos, ruas, praias fluviais, comboios”, entre outros.

Maria do Céu Albuquerque, presidente do Conselho da Cim Médio Tejo, destacou na apresentação do projeto na Bolsa de Turismo de Lisboa, a aposta na promoção turística da região centrada em três momentos ao longo do ano, que incluem residências artísticas, workshops e espetáculos, “envolvendo as populações locais, artistas com ligação à região, nacionais e estrangeiros, destacando ainda o papel deste projeto “ambicioso” que contribui para a “afirmação turística” da região ao fazê-la caminhar com um ritmo único, assente nas suas “especificidades”.

Património é palco

Cinco artistas trabalham há já um mês em cada um dos municípios dos Caminhos do Ferro. Violant em Tomar, Marina Palácio em Vila Nova da Barquinha, Yola Pinto em Abrantes, Paulo Carmona em Mação e o Teatro do Ferro no Entroncamento. Cada um destes artistas criaram um percurso artístico nos concelhos em que se debruçaram. O percurso artístico trabalha identidades concelhias, através de residências artísticas. Yola Pinto, por exemplo, encantou-se pela história industrial de Tramagal, concelho de Abrantes. Com hora marcada, durante os dias de programação, o percurso estará disponível (ver programa) para os visitantes que poderão realizá-lo de forma orientada.

Baile dos candeeiros

Marina Palácio, em Vila Nova da Barquinha, propõe “O Espantoso caminho das Árvores-biblioteca”, um percurso artístico para descobrir com a artista, que tem ponto de partidas nas árvores e ponto de chegada nos laços afetivos geracionais, sem esquecer as raízes que dão força à identidade local e à memória das gentes.

A escrita criativa (poesia) e a ilustração partilham-se em cada ramo deste percurso inspirado não só nas folhas das florestas, quintais e jardins, mas também nas folhas dos livros. Elementos simples que merecem uma paragem na correria do quotidiano para saborear o momento, descobrir a beleza e respeitar o meio envolvente.

A artista trabalhou com seniores e crianças do concelho para desenterrar emoções, memórias e criatividade.

Violant, criador de arte urbana, respirou e sentiu o ritmo de Tomar e criará dois murais gigantes que poderão ser visitados durante a semana de programação e que ficarão. O mesmo acontece com todos os outros percursos. A continuidade dos percursos fica assegurada com a formação de mediadores locais, dois de cada concelho, que ficam capacitados para orientar visitas no futuro.

A valorização patrimonial está  no centro da programação com cada um dos monumentos, edifícios, locais de interesse nacional ou regional a comunicar o “vizinho”. A vertente turística está assegurada. O património, os centros históricos serão cenário para espectáculos multidisciplinares. A ideia de caminho está subjacente a toda a programação, o movimento, a ligação, o percurso.

O Castelo de Almourol servirá de cenário para o Baile dos Candeeiros, da companhia Radar 360, em que bailarinos e bailarinas dançam com candeeiros iluminados e coloridos nas suas cabeças. O espetáculo repete-se na Praça Salgueiro Maia, no Entroncamento.

Deixar Lastro

Uma outra vertente, nunca menos importante, prende-se com a capacitação do tecido regional, das pessoas que habitam no e vivem o Médio Tejo. Assim, a rede funcionará numa lógica de comunhão intermunicipal de intervenientes. Os percursos são base fundamental do processo do Caminhos com artistas a interagir com as comunidades locais. Exemplo desta lógica são as intervenções de Aldara Bizarro já em abril. A renomada coreógrafa vai trabalhar com bailarinos e bailarinas amadores, sejam de ranchos folclóricos, danças de salão, entre outros, de cada um dos concelhos intervenientes dos Caminhos do Ferro. Aldara Bizarro propõe o projecto “Andar” que reunirá 10 participantes de cada um dos concelhos dos Caminhos do Ferro (Abrantes, Entroncamento, Mação, Vila Nova da Barquinha e Tomar). No total, 50 participantes ensaiarão o espectáculo de dança e exibirão em Abril. O espectáculo será depois reposto em Julho, nos Caminhos da Água.

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O Projeto Caminhos é um caminho a ser percorrido por todos, população local, turistas, municípios, e CIM Médio Tejo. Não é um festival, não é uma mostra, é um projeto para uma região, um projeto cultural e artístico que deseja deixar lastro.

O Comissariado Cultural da CIM Médio Tejo é composto por Luís Ferreira (Diretor do Festival Bons Sons e do 23 Milhas de Ílhavo), Elisabete Paiva (Diretora do Festival Materiais Diversos) e Ricardo Alves (Diretor do Jornal NA). A CIM Médio Tejo é composta por Abrantes, Alcanena, Constância, Mação, Vila Nova da Barquinha, Entroncamento, Ourém, Tomar, Ferreira do Zêzere, Vila de Rei, Sertã, Sardoal e Torres Novas.

 

 

Marca d’ Água Opinião de Alves Jana: “Pôr em questão”

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1. Eduardo Lourenço disse há pouco (Expresso, 9.1.16) que “a cultura não é a resposta, é a questão”. Certo. Ou melhor, certo em parte. Porque toda a questão traz já em si, em boa medida, a resposta que permite. Mas Eduardo Lourenço quis sobretudo dizer que a cultura não é, por exemplo como a técnica, respostas prontas a usar. Pelo contrário, a cultura é um pôr em questão as respostas instaladas num “diálogo” permanente “que a humanidade tem consigo própria” (E. L.). Por isso, diz, a cultura “é uma construção”.
Cultura não pode, portanto, ser reduzida ao divertimento, ao entretenimento, nem sequer à educação no sentido de modelar de acordo com uma ordem instituída.
Se a cultura é “a questão”, a acção cultural terá de ser um pôr em questão. Logo, não uma reprodução do que está, mas um exercício de criatividade em que se propõe que seja algo diferente do que é posto em questão. A actividade cultural é, por natureza, provocação, isto é, “chamada para” algo que se anuncia.
2. Eduardo Lourenço é muito claro: a cultura é “uma espécie de diálogo, o da humanidade consigo própria”. Não é um acontecimento fechado, de um criador consigo próprio e com a sua obra. Nem, tão pouco, de um criador com o mercado, por exemplo o mercado das artes. A cultura só chega verdadeiramente a sê-lo se subir à praça pública e, aí, provocar a humanidade, nem que seja nesse segmento particular, a pôr-se em questão em alguma das suas formas de vida. E, se me permitem a ousadia, provocar para que possa subir um degrau, não para descer. Que seria em direcção à barbárie.
3. A cultura é sempre esse movimento do estado selvagem para o estado – mais – cultivado. E há sempre muito se selvagem nas diversas formas de vida. Sobretudo se as compararmos com o mais elevado que poderiam ser. E, sempre, a cultura é um trabalho de resistir ao movimento que puxa para baixo, para o mais primitivo que há em nós, e sobretudo de insistir no esforço de elevação da selva para uma cidade mais humana.
4. E esta selva não está lá longe, no espaço ou no tempo, mas por dentro de nós próprios como eco dos tempos primitivos em que ainda não éramos verdadeiramente homens. E não é verdade que tantas vezes não o chegamos a ser, ainda hoje?
5. A acção dita cultural começa por ser darmo-nos conta disso e continua sendo o trabalho qualificado da humanidade que em nós quer florescer, mas sempre precisa de ser jardinada. Como qualquer jardim, também este, se não for cuidado, é invadido e torna-se selvagem. Não, nem tudo é trabalho cultural. Mesmo que neste tempo sejam múltiplas as formas possíveis de um jardim, nenhum jardineiro se demite de cuidar de que o seu jardim não o envergonhe. Não, um bom jardim não é um terreno baldio com ervas a crescer sem critério. Todo o jardim é uma forma elaborada de humanidade.

Abrantes: Zambujo regressa para concerto

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António Zambujo tinha tudo preparado para tocar durante as Festas da Cidade de Abrantes mas o mau tempo levou a que o município cancelasse os concertos previstos para essa noite, último dia de festas da cidade.

A organização pediu desculpa a “todos e a todas os que pretendiam assistir aos concertos do último dia das Festas, mas todos os esforços feitos para evitar este desfecho revelaram-se insuficientes”.

Os concertos de António Zambujo (22h00) e Wake Up Mary ficaram, desde logo, com nova data marcada: 16 de julho, na Praça Barão da Batalha, e perante as temperaturas que se têm feito sentir não será por falta de calor e bom tempo que os concertos não se vão realizar. É o finalizar das festas da cidade com um dos seus concertos mais aguardados.

Editorial Julho: Choques

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O que é o 180 Creative Camp? Durante e depois da sua primeira edição, a semana criativa organizada pelo Canal 180 em Abrantes, era um desperdício de verbas, uma afronta à cidade. Não raras vezes as conversas de rua e de café desembocavam “naquilo”. Mas “aquilo” foi uma incursão planeada e não ofensiva pela cidade e suas gentes, seus costumes. Um choque planeado. A criatividade de consagrados artistas mundiais invadiu a bonita mas “antiga” Abrantes e com os seus “desfibriladores” libertou as cores por debaixo das crostas cinzentas que se foram acumulando ao longo das décadas nos muros, paredes e estradas.

Mas o que é o 180 Creative Camp? Nas edições seguintes, em 2013 e 2014, Abrantes já não precisou de acordar sobressaltada, como uma senhora de bem ofendida com as brincadeiras de uns “cachopos” e “chachopas” quaisquer na rua, barulhentos. Quem dizia mal das cores novas dos muros começava a tentar espreitar por cima dele. Entretanto, Abrantes nas bocas do mundo.
O que é? É uma oportunidade, uma especialmente feliz porque traz qualidade, traz conhecimento, modernidade e, por isso, conforto aos mais jovens. Não menos importante, choca e abana convicções sedimentadas, daquelas que temos mas sem saber bem porquê. É uma oportunidade de mudar o futuro. Ainda não sabe o que é? Visite Abrantes e veja.

Ricardo Alves, Diretor NA

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Crónica: As hortas de fogo e as florestas de chamas

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Dois bombeiros de Olivais e Portela conversam com o NA junto a um conjunto de pequenas pinheiras em Madeiras, concelho de Vila Nova da Barquinha. É terça feira, dia 7, 19h00. As pinheiras salvaram-se mas todos os cuidados são poucos. Outros bombeiros, da mesma corporação, tentam acalmar um sobreiro que teima em não descansar as labaredas. As poucas oliveiras que ali existem ainda fumegam e assim ficarão durante as próximas 48 horas. No fundo do pequeno vale, onde as pinheiras na encosta tentam sacudir as cinzas, o canavial ainda esperneia, com estalidos de guerra. Os dois bombeiros de Olivais e Portela contam que horas antes, de manhã, tinham falado de Abrantes e Constância e do fato de há algum tempo não terem notícias das chamas por aí. Horas depois eram chamados para ajudar os colegas, juntando-se aos cerca de 500 operacionais no terreno que combatiam as chamas ferozes que viajaram do concelho de Tomar, pululando de encosta em encosta ao sabor do forte vento.

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Há muito combustível para arder, basta começar”, dizia um dos bombeiros enquanto bebia de uma garrafa de leite. É cíclico, parecia querer dizer o outro bombeiro, de cara tapada com um lenço branco encardido. “Vai ser um Verão terrível”, finalizou cabisbaixo, antes de se juntar aos colegas que acalmavam o sobreiro. No fundo do pequeno vale encontram-se populares, que estiveram junto às pinheiras e um conjunto de imponentes eucaliptos que escaparam à fúria das chamas. Foram eles, cerca de quatro, que se mantiveram junto às pinheiras, perto de uma casa abandonada e que é há alguns anos “habitada” por um senhor peculiar, um ermita quase, que afugentaram as chamas e as impediram de galgar a encosta, quiçá saltando a estrada para uma zona de quintas e fazendas. Com pequenos ramos arrancados de oliveiras e das próprias pinheiras, os populares aguardaram por um bafejo menos enérgico do vento e atacaram as chamas que prosseguiam rasteiras. Ali se deteve, mas as chamas arrepiaram caminho por entre o vale, sentindo não serem desejadas daquele lado do monte.

Cerca de uma hora antes olhava-se o fumo na estrada que dá acesso a Limeiras. Os bombeiros e Guarda Nacional Republicana fecharam a estrada. A poucas dezenas de metros as chamas devoram tudo. O vento sopra forte, muito forte, e com laivos de soberano, rosna noutras direções, inconstante. Quando chega a um campo aberto, de mato alto e seco, o fogo ganha asas, velocidade. O vento antecipa-lhe os passos e muitas vezes se vê as chamas a aparecer dez, vinte metros mais à frente, como se uma corrida de velocidade se tratasse. Um habitante encontra-se no topo de um largo monte de terra e veste-se de branco. Não dá para vislumbrar o que é. Atrás de nós uma vizinha diz preocupada, “vai ver das abelhas!”. Pôs o capacete e máscara de apicultor e desapareceu por detrás do monte. O fogo lavrava a cem metros. Não se sabe se salvou as colmeias, mas não há vítimas mortais do fogo, “apenas” sete pessoas ficaram feridas, dois civis e cinco bombeiros.

Para trás ficou a aldeia de Portela, no concelho de Tomar, onde tudo começou por volta das 12h50. Em Vila Nova da Barquinha, mais tarde, soariam as sirenes, frenéticas. Um contato do NA com os Bombeiros Voluntários da vila fez saber o pior: “entrou agora no concelho, está no Cafuz!”. Três dias depois, o lugar está irreconhecível. Também as Limeiras, Constância e Montalvo. Depois da Portela, Tomar, o incêndio alastrou aos concelhos vizinhos de Vila Nova da Barquinha, Constância e Abrantes.

Os 500 operacionais apoiados por 147 viaturas e algumas máquinas de rasto e sete meios aéreos não tiveram mão as medir. Na noite de terça feira ainda o fogo se mantinha forte. A parte alta de Constância, junto às escolas e também aquela junto ao Centro de Ciência Viva e Quinta de Sta Bárbara, foi dizimada. Horas antes, pelas 17h00, as chamas chegaram ao concelho. Os bombeiros concentraram-se nas habitações, na salvaguarda das casas das pessoas, priorizando aquelas que são de primeira habitação. Em Tomar ardeu uma viatura de um “curioso”, que quis ver de bem perto as chamas e não contou com o bafejo destemido do vento. Outras duas terão ardido, pelas mesmas razões.

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Na noite de terça-feira, Constância, a vila poema, parecia em estado de sítio. Coberta de um fumo espesso e “adornada” pelas luzes das viaturas de socorro que repousavam nas suas ruas. As chamas viam-se ora fortes, ora calmas, mas deixavam de se ver. Do outro lado do rio, a sul, são avistadas mais chamas, prontamente combatidas pelos bombeiros. A A23 está cortada, a ponte que liga os concelhos de Vila Nova da Barquinha e Constância, para a vila, também já esteve cortada, bem como a A13. Ninguém passa pelas estradas que dão acesso a Castelo do Bode, por Constância, e a Madeiras e Limeiras, pela Barquinha. O incêndio “passeia” altivo e gozão por cima do seu eterno inimigo, a água, do Zêzere, fazendo pouco caso dos homens e mulheres que abnegadamente nos tentam proteger dele.

A noite trouxe, no entanto, alguma calma. Mas os rostos dos bombeiros não tranquilizam quem se detém a olhar mais de dois segundos para eles. A noite será longa. Os populares fazem o rescaldo visual, caravanas de curiosos “passeiam” pelos escombros de janelas fechadas e ar condicionado ligado. No topo de Constância tudo fumega. O caminho até ao Centro de Ciência Viva é desolador e assemelha-se a uma procissão, com pequenos focos de chamas que devoram lentamente as estacas colocadas ao longo da estrada.

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Quarta-feira, dia 8, acorda com o mesmo cheiro. A tensão é menor mas teme-se o aumento do calor com o desenrolar do dia. Há bombeiros que dormem nas paragens de autocarro de Limeiras, debaixo de árvores que escaparam às chamas, nas sombras desenhadas pelas casas antigas de Constância. De manhã, em Madeiras, houve um de vários reacendimentos. A besta queria mais, nomeadamente as tenras e jovens pinheiras. Os Bombeiros, em alerta, acorreram prontamente e placaram a investida, quiçá planeada de dentro do sobreiro.

Era hora de almoço – se é que nestas alturas se pode marcar hora de almoço – e os bombeiros acalmam o estômago com a fruta, as bebidas e demais alimentos que os populares assolados lhes dão. Pouco depois das 14h00, uma coluna de fumo irrompe pelo horizonte. O NA está em Constância, junto ao Zêzere. Madeiras arde de novo, pensamos, um reacendimento, lamentamos.

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As sirenes voltam a soar e os motores aceleram pela ponte. Seguimos o seu rasto até junto da ponte que atravessa a A23, em Madeiras. O fogo alastra no que parecem ser os terrenos dentro do perímetro da Base Aérea de Tancos, junto à pista. O NA segue para a reta que, normalmente, alberga os curiosos dos aviões. Desta vez as razões para a concentração de viaturas e populares é outra. O fogo está dentro da base e, incrivelmente, saltou o asfalto da pista e queima pequenos arbustos a cinquenta metros da cerca. Viajou numa fagulha e ali aterrou e se instalou, a cerca de 700 metros de onde começou a arder. Os presidentes da junta de Freguesia de Praia do Ribatejo e da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, olham incrédulos e preocupados. Por cima das cabeças voam cinzas, pedaços de árvores, uns ainda em brasa, outros à espera de pousar e serem apenas pó.

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Perguntamos se foi um reacendimento ou se foi uma projeção do incêndio de Tomar. “Não”, responde prontamente o proprietário do Restaurante “O Almourol”, “foi um camião que se incendiou na A23 e passou as chamas”. Não bastava o “outro” indomável. Os populares fala no paiol e relembram uma grande explosão há muitos anos atrás, que partiu vidros de janelas dos habitantes de Madeiras e Fonte Santa, e que levou mesmo à evacuação por precaução da população residente. Não valia a pena semear o pânico. Os militares avisariam se tal fosse necessário. Não foi.

O fumo negro permanece em maioria. O branco dá ares da sua graça muito intermitentemente. Mais viaturas acorrem ao local, por estradas sinuosas, de terra e “calhaus”, acercando-se do local à lenta velocidade permitida. Os militares dentro da Base tentam que as chamas não ataquem a antiga Base Aérea 3. O trabalho prosseguiria durante a tarde com todos os cuidados a serem poucos. Um dia depois, na quinta feira, dia 9, aconteceria novo reacendimento, na junto à localidade de Sobrado, no limiar dos concelhos de Tomar e Vila Nova da Barquinha. Entretanto, tudo se acalmou.

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Durante três dias viveu-se um pesadelo. As populações viram as suas ruas e estradas adornadas de cinzento, num ápice. Para muitos que moram nos locais afetados, foi-se parte da subsistência, uma pequena horta aqui, uma fiada de eucaliptos ali, sobreiros, árvores de fruto, entre outros. A incredulidade juntou-se à impotência. No Cafuz, Matos e Limeiras, o cenário outrora verdejante, a vegetação que dava uma imagem de beleza às encostas que só acabam no Rio Zêzere, foi substituída pelo negro. Em Cafuz, uma equipa de reportagem da TVI montou câmera numa curva da estrada, no meio de um dos vales assolados. O pivot, de costas para a paisagem e para o curso do Zêzere, entrou em direto. Munido de um papel com anotações, lá gravou a sua peça para enviar para a regie do canal.

Leu, gravou, enviou. Não precisava de ler nada, apenas ficar parado em frente à objetiva e deixar que o cinzento a perder de vista falasse por si. Três dias para esquecer que é bom que não sejam esquecidos. O verão ainda não vai alto mas o inferno já desceu à terra. Todo o cuidado é pouco.

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Texto e Fotos: Ricardo Alves

Prémios NA: O Médio Tejo passou por aqui

A primeira edição dos Prémios NA realizou-se no dia 12 de Junho, no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha, e premiou quem e o que melhor se faz no Médio Tejo.
Fel, banda de Abrantes, atuou no evento e deixou a plateia curiosa com a sua qualidade.
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